19 de jul de 2012

MAESTRO PORTUGUÊS DEFENDE EDUCAÇÃO MUSICAL DAS CRIANÇAS PARA FORMAR PÚBLICO E MÚSICOS

Para o maestro português Paulo Clemente, as bandas podem cumprir papel fundamental na formação de músicos e de público para a música. Ele ministrou palestra no XII Festival de Música de Ourinhos nesta quarta-feira, 18 de julho, abordando a formação de novos músicos. Clemente está no Brasil intercambiando experiências com bandas brasileiras, em especial junto à Banda Municipal de Laranjal Paulista, regida pelo maestro Fúlvio Scarme. Mestre em Estudos da Criança em Educação Musical, Clemente é Maestro da Banda Sociedade Filarmônica Vermoilense e Diretor Pedagógico na Escola de Música em Pombal, Portugal.

Comentando a história das bandas em seu país, Clemente relatou que surgiram no século XIX e que a maioria dos fundadores foram padres, que queriam as bandas tocando em cerimônias religiosas. Até hoje elas tocam nas missas e nas “ruadas”, para divulgar as festas religiosas. Outra influência na formação das bandas foram os militares, os primeiros maestros, que levaram para as bandas a tradição das fardas como indumentária. Trata-se de uma história relacionada também com a história do Brasil, pois a muitas das bandas foram fundadas em 1821, após a volta do D. João VI à Portugal.

O Maestro Clemente atribui às bandas terem sido e serem ainda as escolas onde os mais pobres aprendem música. E como aqui no Brasil, também lá em Portugal são grandes as dificuldades da educação musical. Antes da década de 1990 os maestros das bandas eram os formadores musicais e ensinavam todos os instrumentos, com agravante de serem instrumentos muito ruins, e de custo alto, o que prejudicava a qualidade do aprendizado.

Mas graças às bandas e seu papel de difusão musical, cresceram os interessados em estudar. “Foi então que começamos a fomentar a importância da formação e a contratar professores músicos para ensinar os vários instrumentos às crianças”, relata o maestro. “Percebemos, inclusive, que era importante cobrar dos pais uma mensalidade, pois eles não se interessavam em acompanhar e valorizar o que era de graça”.

Ao encarar o ensino da música para as crianças, a experiência portuguesa montou escolas e defrontou-se com a lacuna na própria formação dos professores, que não estavam capacitados para ensinar aos pequeninos. “Mesmo os fabricantes de instrumentos precisam pensar nisso, pois os instrumentos não têm tamanho adequado aos pequenos e é das crianças que virão os futuros músicos e ouvintes”, opina Paulo Clemente.
Alertas muito importantes foram dados pelo educador musical português, entre elas a de que os professores de música não podem pensar em educar apenas os alunos com maior talento. Não podem esquecer-se de que devem conquistar o interesse das crianças e que isso implica que elas se divirtam com a música. “Se pensamos apenas em tocar muito bem e ninguém nos ouve, o que adianta? A existência de um bom público é que estimula nossa evolução.”

Com simplicidade e a sabedoria testada pela boa experiência, Clemente sintetiza sua organização educativa: “quero andar devagar para que as pessoas percebam a caminhada. Trabalho primeiro para que a valorização venha em seguida”. Alerta para que a riqueza da música não seja avaliada apenas em termos monetários e de retorno imediato. A formação musical começa a refletir positivamente apenas em 20 anos ou mais, formando crianças como músicos e como público. No caso do Brasil, Clemente dá sua opinião: “vocês têm um imenso potencial que não exploram. Podem mover montanhas. Se apostarem na iniciação das crianças vão colher muitos resultados, e não podemos depender só do Estado”.

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