10 de jul de 2012

A FUNÇÃO SOCIAL DA MÚSICA NA EDUCAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕES

O maestro Júlio Medaglia, músico convidado do Festival em 2009.
Desde 1972, portanto há 40 anos, as escolas públicas brasileiras não contam com o ensino musical em seus currículos. Retomar esse processo tantos anos depois impõe desafios como a falta de profissionais preparados para a função e adequação do ensino às novas realidades tecnológicas. Porém, mais importante talvez seja a reflexão sobre a necessidade e benefícios do ensino da música e das artes. Ninguém discute a necessidade de se ensinar novas tecnologias e o uso de equipamentos, assuntos que possuem inúmeros defensores. Defender o desenvolvimento da acuidade estética e seus benefícios num mundo cada vez mais tecnicista é mais difícil.  O assunto tem sido objeto de reflexão durante o Festival de Música de Ourinhos desde 2007, através de mesas de discussão ou palestras.  Em artigo publicado no Balaio de julho de 2009, o maestro Júlio Medaglia defende que o ensino musical aconteça de maneira prática, e que os alunos tenham oportunidades de assistir vídeos, ouvir música de qualidade, cantar e tocar instrumentos baseados na filosofia Orff, atividades que, segundo ele, podem ser realizadas por um músico com formação razoável - “sem mil diplomas, licenciaturas ou mestrados”. Medaglia também reforça que uma das obrigações do professor de música em escolas públicas é a de proporcionar situações para que os alunos possam ouvir boa música: “A mídia é inimiga da boa música – ao contrário do que já foi no passado. O massacre da sensibilidade das pessoas via meios de comunicação é terrível”.
    H.J. Koellreutter, músico e pensador alemão que viveu muitos anos no Brasil abordou o tema no artigo “Educação musical no terceiro mundo: função, problemas e possibilidades”, publicado em 1990. Segundo o autor, no Brasil e em outros países do chamado Terceiro Mundo, a música precisa ter uma função social. A educação teria a função de “ajudar os jovens a viver em um mundo que se transforma diariamente, tornando-o capaz de criar um futuro digno para si mesmo e para seus filhos”. Para isso, o autor critica categorias tradicionais de currículos que há muito se tornaram obsoletas. Koellreutter vê a arte como um fator de humanização do processo civilizador, e a inserção da música como arte funcional, auxiliando em várias áreas de trabalho, no comércio e na indústria, setores de planejamento urbano, na terapia e reabilitação sociais. Além disso, a arte e a música em particular, “deverão ser meios de preservação e fortalecimento da comunicação pessoa a pessoa; de sublimação da melancolia, do medo e da desalegria, fenômenos que ocorrem pela manipulação bitolada das instituições públicas na vida moderna, tornando-se fatores hostis à comunicação”. Koellheuter reforça que a música deve ser usada como meio de desenvolver a personalidade do aluno, auxiliando em qualquer atividade profissional. Como exemplo, cita o desenvolvimento da autodisciplina, concentração, subordinação de interesses pessoais aos interesses do grupo, auto-crítica, criatividade e desenvolvimento da sensibilidade, fatores que  podem ser desenvolvidos através do treino mental de atividades musicais.
Reforçando sua tese de que a arte e principalmente a música devem ter uma função social, ou seja, de visibilidade e aplicabilidade, o autor critica a noção de arte como ideal, preocupação de beleza ou prazer. E não poupa a ação medíocre de artistas movidos pela vaidade e presunção. Para ele, a música é útil para a vida, e sua aplicação na educação traz benefícios na formação global das crianças e jovens.
Enny Parejo, que coordena o curso “Música na Escola” durante o Festival, em entrevista publicada nesta edição afirma que “a arte levada a sério em nossa escola produziria crianças e jovens mais sensíveis, críticos, com apuradas demandas estéticas e dificilmente manipuláveis”.
O sistema educacional brasileiro passa por processo de reflexão e críticas, principalmente a partir da adoção de medidas que atestaram e divulgaram suas deficiências. É o caso da divulgação de milhares de casos de estudantes que continuam analfabetos funcionais, mesmo depois de anos de escola. Ou da verificação da falta de discernimento crítico, de opiniões próprias, de dificuldades de falar e escrever corretamente, situações com as quais nos defrontamos diariamente.
Se pretendemos investir na educação das novas gerações, é preciso também facilitar para que as crianças experimentem através da arte, assistam peças de teatro, visitem exposições, ouçam música. Afinal, a cultura é uma parte indispensável e inseparável da vida social.

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