16 de nov de 2011

Que cultura educativa cultivamos?

No início da década de 90, uma pesquisa realizada por estudantes da Universidade de São Paulo – USP, sobre a percepção das crianças, solicitou a muitas delas que desenhassem uma galinha. Os resultados assustaram, porque muitos dos desenhos mostravam as aves embaladas, tal como se encontram nos supermercados, denunciando que as crianças de grandes centros urbanos passam a ter uma noção industrializada e embalada da vida.

Hoje, duas décadas depois, o cotidiano de nossas crianças nos centros urbanos se tornou ainda mais fixado entre quatro paredes, seja em casa ou na escola. As janelas para verem o mundo são janelas eletrônicas dos televisores e computadores. Muitos argumentam que o mundo se tornou próximo através da internet, e que a programação televisiva amplia a cultura geral de atualidade. Talvez sim. Mas o que nos responderiam as crianças se lhes perguntássemos o que conhecem de música, por exemplo? E se lhes pedíssemos exemplos de comportamento solidário? E se lhes pedíssemos para explicar como a matemática pode ajudar em suas vidas? E se lhes pedíssemos que nos dissessem o que as faz felizes?

O grande problema de ficar preso entre quatro paredes e ver o mundo através das telas eletrônicas, é a perda do aprendizado com base na experiência sensível. Em uma reflexão feita em 1933 sobre os riscos da perda da experiência, Walter Benjamin, pensador cultural alemão, dizia que a humanidade caminhava para uma vida em interiores, onde o ser humano se iludiria ajustando-se mais aos interiores dos prédios do que esses interiores às necessidades humanas. Benjamin chamava a atenção para a propensão a evitar as riquezas da experiência vivida e as complexidades do conhecimento experimentado, preferindo a acomodação e a ostentação da própria ignorância. Dizia Benjamin do risco de termos como objetivo de vida fugir da própria vida, e da tendência de cada vez mais se criarem formas técnicas e de entretenimento para tornar o mundo mais cômodo.

É de assustar que os pais, ao invés de educar as crianças na interação com a sociedade, prefiram isolá-las, com a desculpa de garantir sua segurança. E de assustar mais ainda que as escolas, ao invés de incentivarem o conhecimento vivido da diversidade cultural, fechem-se entre seus muros, a pretexto de estarem se concentrando em ensinar. Paulo Freire, um dos mais reconhecidos educadores da humanidade, criticava as escolas por ignorarem os repertórios de conhecimentos e vontades das crianças, e também por não as incentivarem a ler o mundo. Ao final das contas, se cultura é cultivo, como diz a origem da palavra, que cultura educativa exercemos?


Editorial Balaio Cultural 11/2011.

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