8 de ago de 2011

Show: “Língua de criança” traz Guca Domenico ao Teatro

Os dias 24 e 25 do A(o)gosto das Letras serão dedicados às crianças. Nestes dias no Centro de Convivência vai acontecer o A(o)gosto das Letrinhas, com atividades especialmente preparadas para elas, é o A(o)Gosto das Letrinhas, veja programação AQUI. À noite Guca Domenico apresenta o show Língua de criança no Teatro Municipal,oportunidade de conferir o trabalho que apresenta brincadeiras com a sonoridade das palavras, mostrando como é possível fazer música inteligente para o público infanto-juvenil. O show é recomendado para todas as idades, e os ingressos custam R$ 3,00. Confira abaixo entrevista que o músico deu ao jornal Balaio Cultural:

Os ingressos estão disponíveis no Teatro Municipal, 14 3302 3344.
Quais as diferenças entre se fazer músicas para crianças e para adultos?
Fazer música para criança é uma tarefa das mais difíceis porque, em geral, a idéia que se tem sobre o universo infantil é que ele é infantilóide. Não é. Crianças são ligadas e não gostam de ser feitas de bobas. É preciso ter cuidado na abordagem para que se estabeleça uma ligação de confiança entre o público e o artista. Uma vez conseguido isto, a relação é muito prazerosa, cúmplice. Escrever música para adulto é muito mais fácil. Pegue, por exemplo, a veia romântica. O ouvinte apaixonado aceita qualquer coisa desde que esteja eivada de sentimento. A criança é mais exigente, ela quer ser instigada a descobrir, adora novidade.

Como é o mercado de música para crianças? Você vai lançar um CD com as músicas do show “Língua de criança”?
O mercado de música para criança é vasto e pouco explorado. Hoje, se encontra todo tipo de música direcionada ao público infantil, desde as releituras das cantigas de roda, trabalhos autorais (como faz o Palavra Cantada) até pretensos hits com música de gosto duvidoso, só para faturar mesmo. É um mercado democrático. Eu sinto um grande prazer em fazer shows. O contato direto com o público é inigualável, as reações das crianças são maravilhosas. Uma vez, fiz um show num CEU, escolas-modelo da prefeitura de São Paulo. Era um show na periferia. Teatro lotado, 700 pessoas, a maioria crianças acompanhadas de pai, mãe, avó, irmão mais velho. Foi uma experiência fantástica. Ouviram durante uma hora 90% do repertório inédito de músicas minhas. Os outros 10% nem sei se tinham ouvido, desconfio que não. Era a História de Uma Gata, do Saltimbancos, Sítio do Picapau Amarelo, do Gilberto Gil, e A Casa, de Toquinho e Vinícius. E algumas cantigas de roda, como Escravos de Jó e A Menina que Está na Roda. Ao final do show, fui rodeado pelas crianças que invadiram o palco. Uma das minhas maiores emoções na carreira. Por causa desse tipo de repercussão, pretendo gravar um CD com minhas músicas. Sou bastante cobrado nesse sentido. Algumas pessoas até me xingam de burro porque não tenho disco pra vender depois do show...

O que o mercado musical oferece hoje como produções voltadas para  crianças?
Oferece pouca coisa em termos de qualidade, infelizmente. Aquelas produções como Saltimbancos, Arca de Noé, etc., estão cada vez mais raras. Eu pretendo suprir essa necessidade, quero fazer um disco pra gente pequena com produção de  gente grande. Há exceções, mas falta divulgação na mídia por falta de interesse de mão dupla entre a indústria e os meios de comunicação.

Você classifica seu público infantil como “gente inteligente”. Quais as características desse público, que merece esta definição?
Quando opto por escrever canções destinadas ao público que não tem as ferramentas intelectuais para discernir o que é uma cacofonia sonora ou uma aliteração, e mesmo assim uso mão desse recurso, estou dizendo mais ou menos assim: "confio na sua inteligência e sensibilidade para sacar minha brincadeira com a palavra". Porque uso muito o recurso lúdico para fazer chegar a informação (que também é formação) e não deixar a coisa pesada. A gente ensina melhor se brincamos com os sons e os sentidos.

Sua música tem humor. Como as crianças reagem? De que forma esse humor é conduzido, com  as ressalvas de uma sociedade que se pretende “politicamente correta”?

Essa é a parte mais gostosa: brincar com o politicamente correto. Criança não liga a mínima pra isso. Elas até são maldosas. O bullying não me deixa mentir. Porém, eu tomo o cuidado de adequar o humor para não cair no mau gosto. Por detrás da minha arte há a intenção de educar prazerosamente. Não poderia afirmar preconceitos, por exemplo. É feio. Também preciso estar atento para não ficar ditando regra, ser hipócrita. Resisti muito a um convite da editora Nova Alexandria para escrever um livro sobre ecologia. Não gosto de ditar regra, acho muito chato. Só aceitei porque o editor me deu liberdade para escrever como eu queria. E eu não quis apontar o dedo para ninguém - coisa muito comum entre ecologistas. Acho que minha intuição funcionou porque o livro foi um sucesso e foi adquirido pelo Ministério da Educação para ser distribuído no Brasil todo. Chama-se Olhe o Desperdício, Coelho Felício. Eu imagino que ser politicamente incorreto é o que me faz ter o espírito infantil. E por tê-lo consigo me comunicar com a criançada tão bem.

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